Oitiva desta terça-feira (14) aponta envase em residência, ausência de lacre, apreensão de materiais e laudo com metanol em níveis tóxicos
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Metanol da Câmara Municipal de São Paulo ouviu, nesta terça-feira (14), Vanessa Maria da Silva. Presa e sob custódia do Estado, a depoente prestou depoimento por videoconferência e negou qualquer envolvimento na adulteração de bebidas com metanol.
Durante o depoimento, Vanessa afirmou que passou a engarrafar bebidas após a pandemia, realizando o envase em sua própria residência, onde mantinha uma espécie de linha de montagem doméstica. Segundo ela, os produtos não possuíam lacre de segurança.
A depoente informou ainda que adquiria os vasilhames de um fornecedor identificado como Pedro Lagarto e que comercializava gin e vodca de porta em porta. Questionada sobre os locais exatos de venda, disse não se recordar.

A versão apresentada foi confrontada com os elementos reunidos pelas investigações. De acordo com informações levadas à CPI, a Polícia Civil encontrou na residência da depoente 924 garrafas vazias, 98 garrafas cheias, cerca de 3 mil rótulos falsos, 1.520 tampas, nove galões de 50 litros contendo líquido suspeito, além de equipamentos como prensa, soprador térmico e latas de vodca.
Ainda segundo os dados apresentados durante a reunião, a perícia identificou adulteração com presença de metanol em concentrações entre 2% e 45% — níveis considerados tóxicos e potencialmente letais ao consumo humano.
Apesar dos indícios, Vanessa Maria da Silva negou participação na adulteração.
A oitiva também mencionou nomes ligados ao convívio da depoente. Ela afirmou que o pai, João Antônio da Silva, apenas a levava à escola, embora ele já tenha sido alvo de investigação anterior por adulteração de bebidas. Sobre o ex-companheiro, Renan Felizardo, disse não manter mais contato — ele também já foi acusado anteriormente. Ainda foi citado Claudinei, apontado como possível dono de estabelecimento relacionado à comercialização das bebidas, informação que deverá ser aprofundada pela comissão.
Para a presidente da CPI, vereadora Zoe Martínez, o conjunto de informações reforça a gravidade do caso.
“Estamos diante de indícios muito sérios, que apontam para uma estrutura irregular de produção e distribuição de bebidas. O nosso compromisso é avançar nas investigações, identificar todos os responsáveis e garantir que esses crimes não fiquem impunes e não voltem a ocorrer”, afirmou.


Relato de mãe de vítima emociona a sessão
Um dos momentos mais marcantes da reunião foi o depoimento de Josiane, mãe de Leonardo de Souza, uma das vítimas da ingestão de bebida adulterada com metanol. Segundo ela, o filho sofreu sequelas neurológicas e motoras graves.
“Sempre trabalhei para sustentar a família e colocar arroz e feijão na mesa. Nunca prejudiquei a vida de ninguém”, desabafou.
De acordo com a mãe, Leonardo enfrenta depressão profunda e já atentou contra a própria vida. “Minha vida acabou”, relatou o jovem, evidenciando o impacto das sequelas.
Sobre a CPI do Metanol
A Comissão Parlamentar de Inquérito tem como finalidade investigar a comercialização de bebidas alcoólicas em bares, restaurantes e estabelecimentos congêneres no Município de São Paulo, com foco na apuração da procedência e da qualidade dos produtos, especialmente aqueles que possam ter sido adulterados com metanol ou outras substâncias nocivas à saúde.
A CPI é composta pelos vereadores Zoe Martínez (PL), Adrilles Jorge (União Brasil), Sandra Santana (MDB), Ely Teruel (MDB), Sargento Nantes (PP), Hélio Rodrigues (PT) e Celso Giannazi (PSOL).
Fotos: Liderança do PL – Paty Iglesias


